"Conceder a palavra às crianças não significa fazer-lhes perguntas e fazer com que responda aquela criança que levantou a mão em primeiro lugar [...]. Conceder a palavra às crianças significa, pelo contrário, dar a elas as condições de se expressarem."
(TONUCCI, 2005).

domingo, 7 de agosto de 2016

Os ideais democráticos e a educação infantil


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Marcelo Ribeiro
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Não há nada mais absurdo para não dizer hipócrita do que a ideia de uma educação que não seja de uma ordem política. A grande questão é de que tipo de política estamos falando ou ensejando na educação. Basicamente, em posições antagônicas, vamos encontrar, pelo menos nos modelos mais típicos, uma política autoritária versus uma política democrática.
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A primeira tem característica totalizadora, com relações de poder rigidamente assimétricas e desejosa por corpos dóceis e sujeitos autômatos, como abordado criticamente por Michel Foucault e pelos estudiosos da escola de Frankfurt.
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A política democrática, que não é isenta de problemas, se configura pela pluralidade e liberdade de expressão, pela ideia de sujeito de direito e tem, como base, o princípio do diálogo.
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Dessa forma, a política, em seu sentido lato é forjadora de sujeitos, pois organiza e medeia as relações, criando condições para um modus operandi social. Seja em seu modelo típico autoritário ou democrático, teremos sujeitos impactados pela ordem política em todo o seu processo histórico-desenvolvimental.
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Partindo do princípio que educar é antes de tudo uma tomada de posição, um assumir a perspectiva em relação ao humano e ao mundo, a ordem política sempre será uma condição sine qua non dos processos educativos. Educar é uma ordem política, portanto, mesmo quando não se queira assumir essa ordem.
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John Dewey foi um dos pensadores que assumiu radicalmente essa ordem (política) na educação, sobretudo em relação aos processos escolares. Para Dewey, a educação deveria estar voltada para formação de uma sociedade democrática (obviamente por assumir essa posição), assim como esta (a sociedade) sustentaria espaços escolares para o desenvolvimento de valores e práticas democráticas.
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Acertadamente as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil, compreende a criança como sujeito histórico e de direitos, construindo sua identidade individual e social, vivendo a ludicidade e produzindo sentidos. Sendo assim, essa criança, ativa em seus processos, está inserida uma instituição da educação infantil (seja creche ou a pré-escola) que, ao assumir valores, práticas, atitudes e mediar tudo isso em suas ações sociais-pedagógicas, está, indubitavelmente, na ordem de uma política.
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No que se refere aos ideais democráticos, sobretudo a valorização das diferenças, a autonomia, a participação e o diálogo como base das relações humanas, estes precisam ser trabalhados, vigorosamente, desde a educação infantil. É certo que a educação por si não garantirá uma mudança social, de uma perceptiva autoritária para uma democrática, mas sem a contribuição da educação, as mudanças ficariam muito mais comprometidas. E a educação infantil, no que diz respeito a sua ordem política (democrática) é fundamental para garantir a formação das crianças em suas especificidades, mas também em suas potencialidades enquanto novas gerações de adultos.
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Por fim, perguntas devem ser lançadas a todos para que possamos manter vivo o entendimento de que educar é um ato político. Além disso, certamente, a ordem democrática precisa ser garantida desde a educação infantil. Sendo assim: que sociedade queremos? Que humanos desejamos? Que tipo de educação infantil iremos disponibilizar para as nossas crianças? Uma educação de ordem política autoritária ou democrática?
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Obs. Este texto é dedicado a Rita Coelho, recentemente exonerada da função de Coordenadora Geral de Educação Infantil do MEC. Eis uma defensora da ordem democrática na educação infantil.

Publicado em http://www.pensaraeducacaoempauta.com/#!blank-276/n0e5p