Marcelo Silva de Souza Ribeiro
Sabe, quando a gente pensa na infância, às vezes esquece de algo muito básico: as crianças têm direito a um bem viver junto da natureza. Direito de brincar na beira do rio, de sentir a areia do mar, de correr nos campos, de explorar a mata, de respirar um ar puro… direito de crescer em um ambiente seguro e preservado. Parece simples, mas o mundo que estamos deixando para elas é, infelizmente, um mundo mais poluído e mais pobre em biodiversidade.
E aqui vale uma lembrança importante: quando falamos em “meio ambiente”, não é como se o ambiente estivesse de um lado e nós, humanos, de outro. Não. Como bem disse o psicólogo alagoano Afonso Henrique Lisboa da Fonseca, “o ambiente somos nós”. Ou seja, não há separação: cuidar da natureza é cuidar da gente – e, sobretudo, das crianças.
A partir daí, quero lançar uma pergunta que parece óbvia, mas não é: por que a infância é importante? Na teoria, todo mundo responde rápido: "porque é a fase em que tudo começa, a aurora da vida, o início da humanidade em cada pessoa". Mas, na prática, nem sempre tratamos a infância com esse cuidado todo. Muitas vezes a vemos apenas como uma preparação para o futuro, como se a criança só tivesse valor pelo adulto que vai se tornar. Isso até é verdade em parte, afinal, toda criança carrega em si esse “vir a ser”. Contudo, a criança como fase singular do desenvolvimento humano e a experiência da infância não se reduzem a esse “vir a ser”. A criança, enquanto sujeito localizado em um tempo espaço, assim como a experiência da infância, têm valores em si mesmas, pelo que é vivido agora.
E aqui é bom lembrar: não existe uma infância, mas várias infâncias. Cada criança vive sua infância em determinado contexto, com condições muito diferentes. Há aquelas que podem brincar livremente, ter seus direitos respeitados, mas também há as infâncias negadas ou roubadas – de crianças expostas à violência, à vulnerabilidade, às privações que impedem que elas vivam plenamente aquilo que lhes seria de direito.
Outro ponto que costuma aparecer é a visão da infância como fragilidade. Claro, pensar assim tem seu lado importante, porque justifica a necessidade de proteção e fortalece políticas públicas de garantia de direitos. Mas não podemos esquecer o outro lado: a infância também é potência. É fortaleza. Só as crianças, vivendo suas infâncias, têm a capacidade de ver o mundo de um jeito tão singular. A cognição infantil é única: a forma como percebem, lembram, se concentram e criam contraria muitas vezes as visões mais tradicionais do desenvolvimento humano.
E aí chegamos ao que talvez seja o mais essencial: o que é realmente importante para a infância?
Poderíamos então resumir dizendo que importa a relação das crianças com os seus pares; importa a segurança, mas na medida certa, sem sufocar; importa o amor gratuito, sem trocas ou condicionantes; importa mais exemplo, porque a criança aprende muito mais pelo que vê do que pelo que ouve; e importa o brincar, incluindo o brincar na natureza.
E isso tudo, por sua vez, nos leva ao coração do debate: o direito de viver a infância. Direitos que vão desde a família, a educação, a moradia, até o brincar – esse brincar que não é luxo, mas fundamento do desenvolvimento humano.
Lembro de uma pesquisa em que crianças foram ouvidas sobre seus direitos. Elas não falaram de nada muito abstrato. Falaram de casa, de comida, de brincar. Coisas concretas, que revelam como o essencial é também o mais óbvio.
E nesse contexto cabe trazer também a ideia de vínculo como algum essencial, fundante mesmo. John Bowlby falava disso a partir das separações, mas hoje podemos ampliar: o vínculo se constrói no cuidado diário, no afeto das pequenas ações, na segurança oferecida pela presença atenta.
E tudo isso abre espaço para outra discussão: que a ver com a autonomia. O que é autonomia na infância? É ter a chance de experimentar, de errar, de tentar de novo, de aprender a se virar sem cair no assistencialismo, mas também com a possiblidade de aprender a partir de escolhas controladas, de um contexto que a possibilite refletir e ponderar consequências de suas ações.
É o equilíbrio entre a proteção necessária e a liberdade de descobrir. A autonomia se constrói em um contexto democrático onde, longe da permissividade e igualmente distante do autoritarismo, a criança é considerada como parceria de diálogo e por isso se desenvolve aprende pondo a ser responsável e com maior sensibilidade social.
No fundo, é isso que precisamos garantir: que cada criança possa viver a sua infância, em toda a sua potência, em todos os seus direitos, sem que lhe seja roubada essa fase que é única e insubstituível.
